quarta-feira, 30 de julho de 2008

ENTENDA UM POUCO MAIS SOBRE DOHA...

LEIA ESTES DOIS ARTIGOS PARA ENTENDER O QUE ACONTECEU EM DOHA:
21/07/2008 - 15h28
Entenda o que está em jogo na Rodada Doha
da BBC Brasil
A partir desta segunda-feira, ministros de cerca de 35 países estão reunidos em Genebra, na Suíça, para dar continuidade às negociações da Rodada Doha da OMC (Organização Mundial do Comércio).
O encontro em Genebra deverá se estender por toda a semana e é considerado a última chance de se obter um acordo de liberalização do comércio mundial, pelo menos neste ano.
A Rodada Doha foi lançada há sete anos, mas está paralisada devido a divergências sobre o nível de abertura em setores de interesse de países ricos e pobres.
Os países em desenvolvimento querem maior abertura no setor agrícola das nações desenvolvidas, incluindo a redução ou o fim de subsídios. O bloco dos países desenvolvidos pressiona por maior abertura nos setores de indústria e serviços.Entenda o que está em jogo nas negociações.
Há quanto tempo as negociações da Rodada Doha vêm sendo realizadas?
A Rodada Doha da OMC foi lançada em novembro de 2001, na capital do Qatar, com o objetivo de obter maior liberalização do comércio mundial.
Quase sete anos depois, os países envolvidos nas discussões ainda não conseguiram chegar a um acordo.
Até agora, as discussões têm girado principalmente em torno do tamanho dos cortes nos subsídios à agricultura por parte dos países desenvolvidos e no quanto o comércio de serviços pode ser liberalizado.
Por que as negociações foram paralisadas?
Um dos pontos mais polêmicos é o quanto os países ricos aceitam remover suas barreiras a exportações agrícolas dos países pobres.
Também há divergências sobre o quanto as nações em desenvolvimento aceitam abrir seus mercados para bens manufaturados e serviços.
Os países em desenvolvimento criticam o que consideram políticas protecionistas, principalmente por parte dos Estados Unidos e da União Européia.
Eles querem provas concretas de que os países desenvolvidos estão dispostos a abrir seus mercados com cortes expressivos em suas tarifas de importação e nos subsídios à agricultura.
O principal problema é que o livre comércio em agricultura tem se mostrado bem mais difícil de ser negociado do que em bens manufaturados.
Em que ponto está a negociação?
Durante esta semana, os representantes dos países envolvidos deverão ter reuniões dia e noite para tentar aprovar uma proposta de acordo em agricultura e produtos não-agrícolas.
Há alguns sinais de progresso. A União Européia disse estar preparada para reduzir suas tarifas agrícolas em 60%, o que significa um avanço em relação a propostas anteriores.
No entanto, os Estados Unidos afirmam que só irão reduzir seus subsídios agrícolas se os países emergentes abrirem seus mercados, cortando tarifas industriais.
Qualquer proposta de acordo que seja decidida em Genebra terá que receber o aval de todos os 152 membros da OMC antes de ser aprovada.
Há uma corrida contra o relógio para se chegar a um acordo. Os envolvidos nas negociações querem fechar um acordo antes que o novo presidente americano assuma o poder, em 2009.
O novo presidente dos Estados Unidos pode querer fazer mudanças na política comercial do país, e qualquer acordo sem a participação da maior economia do mundo seria bastante enfraquecido --ou mesmo inútil, segundo analistas.
Os atuais problemas na economia mundial afetam as negociações?
A saúde da economia global se deteriorou desde a última reunião para discutir a Rodada Doha, com desaceleração no crescimento nos países desenvolvidos e aumentos do custo de vida.
A alta mundial dos preços dos alimentos, que dobraram desde o ano passado, teve efeito maior sobre os países mais pobres, onde uma proporção maior da renda familiar é gasta em comida.
Segundo analistas, isso levou a um aumento do protecionismo nos países exportadores de alimentos.
Os defensores de um acordo afirmam que ele iria ajudar a reduzir a pobreza e a criar empregos nos países em desenvolvimento, enquanto os países ricos podem se beneficiar se conseguirem exportar mais bens e serviços.
Calcula-se que um acordo possa injetar US$ 100 bilhões por ano na economia mundial.
Quais seriam as conseqüências de um fracasso nas negociações?
O comissário de Comércio da União Européia, Peter Mandelson, afirma que há 50% de chance de sucesso. O diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, é mais otimista.
Um fracasso nas negociações significaria o fim da Rodada Doha, já que as eleições americanas devem dominar a agenda política mundial a partir de agora.
Isso enfraqueceria a realização de acordos multilaterais, já que os países negociariam acordos comerciais individuais entre si, o que colocaria os países menores em desvantagem.
Os maiores países em desenvolvimento, como Brasil e Índia, também perderiam com o fracasso nas negociações, porque precisam de mercados abertos para suas crescentes exportações.
No entanto, algumas ONGs (organizações não-governamentais) afirmam que é melhor que não haja nenhum acordo do que um acordo que seja desfavorável aos países mais pobres.
Para a OMC, o fracasso em obter um acordo depois de sete anos de negociações significaria o maior revés de sua história.

rodada de DOHA, entenda...

29/07/2008 - 19h15
Quem ganha e quem perde com fracasso na OMC

da France Presse, em Genebra

O fracasso das negociações da Rodada Doha sobre a liberalização do comércio mundial alivia alguns países e setores, enquanto outros lamentam a falta de um acordo que poderia dinamizar a economia do planeta.
VENCEDORES
Os governos: A maioria dos líderes mundiais não vai correr o risco de se expor à impopularidade de ter assinado um acordo que se traduziria por uma crescente abertura e dura concorrência na agricultura nos países ricos e na indústria nos países em desenvolvimento.
Os subsídios agrícolas: O acordo em preparação previa um corte de 50% a 85% das subvenções internas concedidas aos agricultores dos países ricos. Previa também a eliminação, em 2013, dos subsídios à exportação. A última proposta dos Estados Unidos era de até US$ 14,5 bilhões por ano em subsídios aos agricultores americanos, contra os mais de US$ 40 bilhões atuais.
Países protecionistas na agricultura: Os países desenvolvidos que impõem tarifas alfandegárias muito elevadas à importação de produtos agrícolas para defender sua produção interna, como o Japão, ou a Suíça, teriam visto suas tarifas se elevarem com o acordo. Os países em desenvolvimento, fortemente dependentes de alguns produtos agrícolas, como Índia ou Indonésia, teriam de limitar suas proteções tarifárias.
PERDEDORES
A economia mundial: Um acordo se traduziria por uma injeção de US$ 50 bilhões por ano na economia mundial e de US$ 100 bilhões ao fim de dez anos, por meio da redução das tarifas alfandegárias, segundo o diretor-geral da OMC, Pascal Lamy. Esses montantes representam uma parte ínfima do PIB mundial, avaliado em mais de US$ 50 trilhões, mas um acordo teria sido um sinal positivo em um período de crise financeira.
Os exportadores de produtos agrícolas: Brasil, Canadá, Austrália e Uruguai esperavam, com impaciência, a redução dos subsídios dos países ricos para exportar seus produtos agrícolas ao mesmo tempo para os mercados dos países desenvolvidos e daqueles em desenvolvimento.
Os países menos desenvolvidos: Os países não tinham nenhuma concessão a fazer nos termos da Rodada Doha, que lhes ofereceria um acesso, sem barreiras, aos mercados dos países desenvolvidos para 97% de seus produtos de exportação.
A indústria: Os países industrializados esperavam, com impaciência, que os países emergentes reduzissem suas tarifas para ter acesso a seus mercados. Índia e Brasil, por exemplo, teriam de levar a média de suas barreiras tarifárias sobre os produtos industriais para entre 11% e 12%. A China também teria se beneficiado, largamente, da abertura de novos mercados para exportar seus produtos manufaturados.
Os Serviços: Os setores de telecomunicações, bancos, ou seguradoras dos países ricos, que procuram novas saídas nos países emergentes, teriam se beneficiado do acordo que pedia a cada Estado-membro para 'assinalar' os domínios nos quais eles estariam prontos a se abrir para a concorrência. O rascunho do texto também previa facilitar a migração temporária do pessoal qualificado.
Os produtores africanos de algodão: Quatro países da África Ocidental (Benin, Burkina Fasso, Mali e Chade) tinham-se reunido para pedir a redução dos subsídios que os Estados Unidos concedem a seus produtores de algodão e o fim dos subsídios à exportação.
Pascal Lamy: O diretor-geral da OMC deu sua última cartada, convocando uma reunião ministerial, sabendo que as chances de sucesso não chegavam a 50%. Ele poderia ter escolhido não solicitar uma renovação de seu mandato de quatro anos, que expira em 31 de agosto de 2009.